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A cerca de cem metros da minha varanda (lamento, não consigo descobrir o valor exato da hipotenusa, também não tenho o dos catetos), vêem-se, deslumbrantes papoilas vermelhas que sobressaem no relvado do campo da "quinta da D. Isabel Gentil", para onde muitas vezes fui ameaçada de que lá iriam parar determinados e variados objetos caso eu não os largasse, mas isso é outra história. As papoilas, que também são vermelhas. Hoje, dia 23, certo? Um cheiro a liberdade que se fica apenas pelo cheiro ao abrigo da varanda, mas não falemos de cravos, aqui o que interessa agora são as papoilas. Tão lindas, da primavera já anunciada e a ponto de prescrever antes ainda de ter sido vivida em condições. Salvaguardam-se os medos de tocar e eu só penso que se aquela rua fosse minha, talvez já não houvessem papoilas... como seria eu capaz de roubar as papoilas à primavera? Da mesma forma como a primavera me tem roubado as papoilas a mim. As papoilas não têm um grande a roma, pelo meno...
Prólogo Há, sem qualquer margem para dúvidas, uma altura em que desejamos, mais que tudo, pedir desculpas pelo que se passa ou se passou, por vezes pedir desculpas por coisas sobre as quais nem sequer temos controlo, como a saudade. Havia umas vozes ao fundo do quarto, aquele quarto onde ninguém vai, pedindo-me que escrevesse um livro, que me revoltasse na revolta de uma fase interminável. Quero guardar este tempo que tenho, e será que tenho tempo(?), para ir capitulando este desconserto de almas que me protegem e que sei que por mim olham, vivas ou mortas, aliás, sempre vivas. Comecei pelo título. Não me agrada minimamente começar algo pelo nome que se lhe vai dar, parece-me até que só por si, pelo facto de lhe darmos nome, fica feito. Mas não, não, mãezinha, não, vovó. Como escrevi antes, ouvi umas vozes, há algum tempo, mas tenho-me confinado a guardá-las para mim, não venham a ser mal interpretadas pois como se diz na gíria popular, quem conta um conto acrescenta um ponto. A ...