Quando fui tomar o meu café à varanda, há pouco, as palavras pensaram-se e sentiram-se melhor que o que, com certeza, as escreverei agora. Lá fora, a frescura que senti fez-me recordar a sortuda que vocês me criaram na minha infância, cheirou-me a maresia, a neblina matinal típica da praia.
Por momentos, fiz uma caminhada de quilómetros (naquela atura pareciam quilómetros e agora ainda pareceriam mais, pois não me vejo com capacidade para enterrar os pés na areia que deve estar gélida). Que se há-de fazer, na altura não sabia, não podia, nem queria dizer não... Afinal de contas, saiu-me a lotaria e eu tinha mais era que fazer proveito dela. Meus pais.
Sabes, mamã, como te estava a contar, o aroma a maresia lembrou-me as caminhadas madrugadoras para ir ver os pescadores a chegar, ou então, se demasiado tarde, ver se restava peixinho caído das redes que me sabia pela vida frito em mini-espetadas ao fim da tarde. Não sei se hoje o que me faz gostar tanto de peixe é isso: as memórias.
Papá, eu queria tanto, tanto, ir cantar à Serafina pelas minhas insónias, contigo, naquela praia que para nós era um mundo, ventosa durante a tarde, mas à noite, ao luar, era das coisas mais belas! O deserto molhado da praia dos meus sonhos, assistir ao pôr do sol. Como eu queria... Já crescida, não me sabe ao mesmo.
Sabes, minha mãe, um dos meus maiores medos é não conseguir ter essa sorte para dar a alguém vindo de mim. Essas histórias, quase documentários, pois ainda sinto o aroma ao mar e gostava tanto de poder dar a sentir a alguém vindo de mim não só as memórias, mas as vivências sem palavras, sem memórias, criar e criar neles essas memórias. Não tenho a lotaria agora, mas ainda sou tão sortuda...
O mar vai lá longe e a ansiedade de não saber o que vou viver, se vou viver, ou como vou viver acaba por criar uma espécie de Alzheimer que receio que apague as memórias todas e eu não quero esquecer. Quando for velhinha, restar-me-ão os aromas para me recordar. Não sei se vou ser mãe, e o pior de tudo, não sei se vou ser mãe como tu, ou pai como tu, ou ter a lotaria para partilhar. E nós fomos tão sortudos.
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