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 "Na sua casa tinha um cadeirão onde se sentava a ler, quase todos os dias, até adormecer depois das quatro ou cinco páginas do livro pois a vista não lhe daria para mais. Certo dia descansou e na manhã seguinte ali foi encontrada. Os sonhos revestiam-se de lugares que nunca antes visitou. Nunca se casou. Casava-se com os livros que lhe acolchoavam a memória de coisas que nunca se sentiu capaz de viver. Nunca havia tirado a carta de condução, e viveu contente com isso até se aperceber de que por vezes, quem a conduzia nos passeios não a levava a ver as coisas mais bonitas, parecidas com as descritas pelas palavras que lia. Depois, foi tarde demais para iniciar. 
Quando fui tomar o meu café à varanda, há pouco, as palavras pensaram-se e sentiram-se melhor que o que, com certeza, as escreverei agora. Lá fora, a frescura que senti fez-me recordar a sortuda que vocês me criaram na minha infância, cheirou-me a maresia, a neblina matinal típica da praia.  Por momentos, fiz uma caminhada de quilómetros (naquela atura pareciam quilómetros e agora ainda pareceriam mais, pois não me vejo com capacidade para enterrar os pés na areia que deve estar gélida). Que se há-de fazer, na altura não sabia, não podia, nem queria dizer não... Afinal de contas, saiu-me a lotaria e eu tinha mais era que fazer proveito dela. Meus pais.  Sabes, mamã, como te estava a contar, o aroma a maresia lembrou-me as caminhadas madrugadoras para ir ver os pescadores a chegar, ou então, se demasiado tarde, ver se restava peixinho caído das redes que me sabia pela vida frito em mini-espetadas ao fim da tarde. Não sei se hoje o que me faz gostar tanto de peixe é isso: as mem...
A cerca de cem metros da minha varanda (lamento, não consigo descobrir o valor exato da hipotenusa, também não tenho o dos catetos), vêem-se, deslumbrantes papoilas vermelhas que sobressaem no relvado do campo da "quinta da D. Isabel Gentil", para onde muitas vezes fui ameaçada de que lá iriam parar determinados e variados objetos caso eu não os largasse, mas isso é outra história. As papoilas, que também são vermelhas. Hoje, dia 23, certo? Um cheiro a liberdade que se fica apenas pelo cheiro ao abrigo da varanda, mas não falemos de cravos, aqui o que interessa agora são as papoilas. Tão lindas, da primavera já anunciada e a ponto de prescrever antes ainda de ter sido vivida em condições. Salvaguardam-se os medos de tocar e eu só penso que se aquela rua fosse minha, talvez já não houvessem papoilas... como seria eu capaz de roubar as papoilas à primavera? Da mesma forma como a primavera me tem roubado as papoilas a mim. As papoilas não têm um grande a roma, pelo meno...
Prólogo Há, sem qualquer margem para dúvidas, uma altura em que desejamos, mais que tudo, pedir desculpas pelo que se passa ou se passou, por vezes pedir desculpas por coisas sobre as quais nem sequer temos controlo, como a saudade. Havia umas vozes ao fundo do quarto, aquele quarto onde ninguém vai, pedindo-me que escrevesse um livro, que me revoltasse na revolta de uma fase interminável. Quero guardar este tempo que tenho, e será que tenho tempo(?), para ir capitulando este desconserto de almas que me protegem e que sei que por mim olham, vivas ou mortas, aliás, sempre vivas. Comecei pelo título. Não me agrada minimamente começar algo pelo nome que se lhe vai dar, parece-me até que só por si, pelo facto de lhe darmos nome, fica feito. Mas não, não, mãezinha, não, vovó. Como escrevi antes, ouvi umas vozes, há algum tempo, mas tenho-me confinado a guardá-las para mim, não venham a ser mal interpretadas pois como se diz na gíria popular, quem conta um conto acrescenta um ponto. A ...