"Na sua casa tinha um cadeirão onde se sentava a ler, quase todos os dias, até adormecer depois das quatro ou cinco páginas do livro pois a vista não lhe daria para mais. Certo dia descansou e na manhã seguinte ali foi encontrada. Os sonhos revestiam-se de lugares que nunca antes visitou. Nunca se casou. Casava-se com os livros que lhe acolchoavam a memória de coisas que nunca se sentiu capaz de viver. Nunca havia tirado a carta de condução, e viveu contente com isso até se aperceber de que por vezes, quem a conduzia nos passeios não a levava a ver as coisas mais bonitas, parecidas com as descritas pelas palavras que lia. Depois, foi tarde demais para iniciar.
A cerca de cem metros da minha varanda (lamento, não consigo descobrir o valor exato da hipotenusa, também não tenho o dos catetos), vêem-se, deslumbrantes papoilas vermelhas que sobressaem no relvado do campo da "quinta da D. Isabel Gentil", para onde muitas vezes fui ameaçada de que lá iriam parar determinados e variados objetos caso eu não os largasse, mas isso é outra história. As papoilas, que também são vermelhas. Hoje, dia 23, certo? Um cheiro a liberdade que se fica apenas pelo cheiro ao abrigo da varanda, mas não falemos de cravos, aqui o que interessa agora são as papoilas. Tão lindas, da primavera já anunciada e a ponto de prescrever antes ainda de ter sido vivida em condições. Salvaguardam-se os medos de tocar e eu só penso que se aquela rua fosse minha, talvez já não houvessem papoilas... como seria eu capaz de roubar as papoilas à primavera? Da mesma forma como a primavera me tem roubado as papoilas a mim. As papoilas não têm um grande a roma, pelo meno...
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